Author Archives: LEusebio

Águas Selvagens

Porque sonhaste o meu sonho.
Porque língua de fogo soçobrada
nas águas ardi no medronho.

E ébrio, vento manso – Ó! mulher amada -,
encrespei-te a pele. Que teu túrgido peito
eram dunas de mel. Uns lábios favo,
outros enseada por onde mavioso sibilava.

Não estavas só. Anelantes, do lusco-fusco
à alvorada, encharcámo-nos em marés vivas.
A Lua abençoou as águas mornas espargidas.

[Luís Eusébio]

Tolerância

O conceito de tolerância é de tal forma ambíguo, que tresanda a intolerância. As coisas, as pessoas, os factos, ou se aceitam ou não. Se aceitamos, não toleramos. Se não aceitamos, não toleramos.

Árvores

Aguarela e carvão de Isabel Almeida

Tremem frígidos os ramos
Galhos afagando troncos
Brisas ululando tangos

 

(Desfloradas e tão castas
dançam nuas pelos campos)

[Luís Eusébio]

Café da Manhã

Saboreamos croissants
com compota de framboesa
Café com leite     morno
que adoçaste com pureza
Torradas     barradas
com manteiga todo o sal
Sumo de laranjas frescas:
agridoces de Portugal

Nos matutinos o negrume
das calamidades públicas
e a denúncia de dramas
e governações abúlicas

 
 
(As Buganvílias     nos canteiros
explodindo em flor     regadas
pelo orvalho     enchem-nos de cor)
Em tuas mãos     a ternura
que já teu corpo doara
repousam beijos de amante
silentes     na manhã clara
Em teus olhos o brilho
e a maciez de um arminho
Doces     – que não inocentes! –
beijam-me com carinho
 
 
(Do nosso jardim profundo
pardais chilreiam pelos ramos
frenéticos     delatando ao mundo
o tanto que nos amamos)
   
[Luís Eusébio]
 

Retalhos da Vida de Um Virgem – XXI

“Win or lose, sink or swim, / One thing is certain, we’ll never give in / Side by side, hand in hand, / We all stand together. ” – Paul McCartney – We all stand together

Quando a música é parte integrante e fundamental da nossa vida, frequentemente acontece elegermos um ou outro tema que nos inspira e eleva, que nos permite ver o sol raiar para além das nuvens mais escuras e espessas, que nos une e nos imbui de um espírito único e, solidariamente dinâmico.

Na vida, não raramente, temos que enfrentar dilemas. Alguns, excruciantes. E, no entanto, quando o mais fácil seria virar costas, vamos à luta. São decisões que, por vezes, nem estamos nas melhores condições psicológicas de ponderar. O instinto diz-nos que, o nosso comodismo ou cobardia, poderá afectar, irremediavelmente, as nossas vidas e as daqueles que gerámos.

Quando a justeza das nossas motivações é inegável, e a alegria dependurada nos olhos duma criança não esmorece; quando os tentáculos do polvo são enormes, poderosos, e nunca antes foram cerceados; quando as ausências nos corroem a carne, como vermes despudorados e famintos; quando o amor é, primário, único, e revela-se em empatias e nos mais nobres propósitos, sabemos então que apenas poderíamos ter seguido o caminho que percorremos.

Nem sempre se ganham as batalhas que travamos. A vida não seria vida, se não tivesse essa componente de angustia e incerteza. E nem sempre, ganhas as batalhas, o júbilo da vitória é doce. Há sempre algo de nós que fica perdido no campo de batalha. Mas, quando a vitória tem, como resultado, o solidificar de afectos; quando a vitória acontece, não só mas também, porque “We all stood together”, nada se lhe compara.

Retalhos da Vida de Um Virgem – XX

 

Love me like a river does / Cross the sea / Love me like a river does / Endlessly… ” – Melody Gardot – Love me like a river does

Não é a página em branco que me assusta. É apenas uma página em branco. O que me assusta é o vazio dentro de mim ou, a incapacidade de a preencher, sensivelmente, com o turbilhão de pensamentos e emoções que se atropelam, que me assaltam, quando a enfrento.

Não é o teu amor que me assusta. É não amares ou não o assumires. É amar-te demais. É o temer não estar à altura de retribuir o que me devotes. É o medo de fracassar na busca dos equilíbrios instáveis. É o temor da censura, em teus olhos admiráveis. É o cansaço, visível, em minha pele engelhada.

Não são as noites escuras que me assustam. Não são os frios polares que me enregelam. Não são as chuvas ácidas que me queimam. A naturalidade, de desastres previsíveis, não me desinquieta. É apenas a vastidão da tua ausência que me dói.

Em argila, lúbrico, minhas mãos moldam teu corpo. Nele domicilio toda a ternura, e absorto, sou ceramista extasiado: o teu pescoço é poço de beijos; os teus seios, cerne de anseios; o teu ventre, meia-lua magnificente; as coxas tuas, onde me enlevo abençoado.

Da obra prima, resto arquitecto saciado.

Saí à rua

Saí à rua. Chovia.
No passeio, lentamente,
uma jovem promitente,
caminhava em agonia.

– Ev’rything’s awright, luv?
– I’ll be fine, thanks!,
disse sustendo as lágrimas,
sorrindo-me o mais que pôde.

 

(Súbito, um raio de sol fulgira,
madrugada, em London Road)

[Luís Eusébio]

Litania de Outono

 

Hoje    apetece-me dizer adeus a tudo
a todos    e permanecer    ridículo e lúcido
neste invólucro lacrado    há cinco décadas
Demasiado justo    Sobremodo apertado

Hoje    apetece-me ficar assim    acanhado
por dentro do visível de mim    algo risível
como arlequim    em cenário burlesco

Hoje    quero ficar só    Sóbrio    Tudesco
Granítico por fora    Por dentro romanesco
Úrico    em depuro    quero espichar dores
em primo muro    como efémero grafíti

Amanhã serei como for    Farei como quiser
Hoje    apetece-me dizer adeus a tudo    A todos
subtrair-me    Ficar só    Sóbrio    E mudo

[Luís Eusébio]

A treta do dia em que morri!!!

No dia em que morri
houve um cortejo de amigos
que em vida nunca vi.
Pesarosos. Gravata preta.
Sóbrias elas nos vestidos
para que nada as comprometa.

Olhando-me cadáver
caminhavam alinhados
circunspectos os safados
olhos postos na ampulheta.

 
 
(Levantei-me e vim embora
que por nem mais uma hora
aguentava aquela treta)
   
[Luís Eusébio]