Category Archives: Luís Soares Eusébio

Tejo Ao Fundo e Lisboa Com Luz

Volto sempre aquela foto
tirada algures no alto
duma colina de Lisboa.
O Tejo, ao fundo,
prolongado na linha do horizonte,
assemelha-se a “écharpe” de seda,
brilhante, planando,
descobrindo-te os ombros.

A cidade, entre ti e o rio,
traz nas vísceras os escombros,
e no útero os assombros
rutilando ao sol de verão.

 
 
(O teu sorriso, etéreo,
mas tão conciso, não.)
Passo meus dedos por teus lábios,
rúbeos, almiscarados, e neles
fico suspenso.
 
 
(Escondido sob óculos
adivinho um mundo imenso.)
   
[Luís Eusébio]  

Desvario

Can miles truly separate you from friends?
If you want to be with someone you love,
aren’t you already there? ”
(Richard Bach)

Minhas mãos reconhecem-te
pelos contornos    a languidez
eflúvios mornos e essência única
deleitosa    O teu corpo é uma rosa
ousada    delicada    majestosa
que    fulgurante    desabrocha
O meu    incandescente    filisteu   é
só a tocha    que se consome pelo teu

A manhã acha-nos    corpos suados
e ilumina-nos    consagrados
em nosso altar de blandícias

 
 
Beijo teus olhos    opados
suplicando por mais delícias
[Luís Eusébio]  

Retalhos da Vida de Um Virgem – XIX

Foto de MGMB

“Porte-moi / Au delà des angoisses / A l’appel du désir / Du cœur de nos fantasmes / Aux confins du plaisir / Que Dieu créa / Pour toi et moi” Charles Aznavour – Toi Et Moi

A maré vaza deixou-me, desnudo, frágil, na orla marítima, deserta, da ilha em que me aprisionei. Entre mim e o mundo, nem uma gaivota plana, serena, pelos céus. Do Criador, apenas o suave marulhar do oceano que se despede das areias húmidas, e o céu ocre que se despede do dia.

Estanque, bate-me, apenas, o coração sobressaltado, e corre-me o sangue, taciturno, por via das dolorosas ausências. O teu mar, lento, distancia-se, e o meu olhar enrola-se nele, indolente. Morro e renasço nas maresias.

No recanto duma leira, no sopé do monte, ergue-se, única – a um tempo majestosa e humilde -, uma casa deserta, sem aldabra nem gelosia. Sobre ela, chegada a noite, uma Lua quase disfarçava a ausência de ti. Era mentirosa. Minguava, iluminando o anfiteatro arenoso, e a mim, perdido em mim.

Muros

Enfrentando olhos ariscos
troam pelos céus coriscos e
em teus muros crescem mirtos.

 

Minha solidão tem um defeito:
a ausência de teus seios hirtos
acometendo contra meu peito.

[Luís Eusébio]

Maria

Praia Formosa, Ilha de Santa Maria, Açores – foto de Nuno Barata

Eis que teu sul é meu norte
E teu norte é meu sul cardeal

 
(E tu toda azimute a que aporte
como à Santa o Velho Cabral)
[Luís Eusébio]

Retalhos da Vida de Um Virgem – XVIII

As palavras podem ser navalhas de gume fino e desleal. Não mas peças mais. Escuta o silêncio. É puro, como nascentes, rasgando margens; profundo, como oceanos embrumados; alto, como o infinito dos céus onde, livres, voam Açores.

Não me peças mais palavras. De nada nos servem. São nódoa no linho puro dos afectos; neblina em olhos irrequietos; tremuras em mãos que fervem. Deita-te a meu lado e respira o silêncio bruxuleante de nossos corpos dados. Nenhuma palavra pode descrever o êxtase exultante dos olhares; nem de meus esgares a exuberante fealdade; nem das mãos tuas a mais terna tessitura.

Não me peças mais palavras. Nenhuma delas chega à altura de meu beijo; à doçura de teus lábios; à silenciosa delicadeza dos sentidos; à venialidade de nossos corpos suados. Nenhuma tem a abrangência do momento em que te dás, nem do mirífico momento em que me morro, nem a maciez de teu peito, nem a loucura com que o percorro.

Com palavras, escrevem-se teses, elogios fúnebres, poemas medíocres, cançonetas alegres, leis sofríveis, discursos falaciosos, interjeições escabrosas. Para tudo o mais são venenosas.

Spleen

Ah! Estou tão farto de mim
gota d’água em oceano revolto
cheio de nada e sem ti Tampouco
uma névoa sobre este mar ou
pingo caído de teu olhar
sulcando moroso em teu rosto

 
(Entrincheirado repugno-me
salpico em amar tenebroso)
[Luís Eusébio]